quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Sophia: quente e fria.


Ela era um pouco estranha sabe? Tinha seus dias bons e ruins mas ambos eram cheios de conflitos internos. 
Era fria por fora, isso era fácil perceber pois suas mãos e pés viviam gelados e trincar os dentes de frio era pra ela uma coisa quase involuntária. 
Muito sensível ao vento, uma brisa leve que lhe rodeava ela já esfregava os braços de frio... Em contrapartida ela era quente por dentro. Mas isso só quem já esteve perto dela o suficiente pra sentir seu hálito morno saberia dizer. 

Só quem já esteve perto o suficiente pra ver suas bochechas um ou dois tons mas rosada que o normal saberia dizer.

Isso só quem já esteve perto o suficiente e foi capaz de senti-la por dentro saberia dizer. 
Em seus dias bons (dias esses que estavam quase extintos de seu calendário) a doçura que exalava de Sophia era contagiante. Ela se dedicava a mostrar pras pessoas o melhor dela e o fato de ela ser quente por dentro a deixava ainda mais doce e meiga. 
Sophia era daquelas meninas que a gente sente vontade de apresentar pra mãe, pra mãe sentir orgulho. 
Andava insegura, como se tivesse vergonha do seu corpo ou de alguma coisa em si, embora ela fosse muito bonita. 
Era como se ela andasse por ai procurando um alguém, como se ela necessitasse de um alguém, e o fato de ela ser fria por fora só comprovava a necessidade que ela sentia de braços a sua volta lhe esquentando. Dava pra ver na sua expressão que lhe faltava alguma coisa.
Em dias assim Sophia fazia trancinhas de lado e sorria sem nenhuma futilidade, parecia a garota mais feliz que eu já havia visto.
Em  seus dias ruins (Ah esses dias!) não havia nada de doce em seu rosto e a única coisa contagiante nessa Sophia era o desejo de alguma coisa errada.
O rosado natural de suas  bochechas era agora mais forte por conta da maquiagem. Seu hálito quente ainda estava presente, mas vinha acompanhado de um cheiro de álcool e não era fraco.
Sophia seria capaz de deixar alguém em chamas em dias assim apenas com um olhar.
Sim ela tinha fogo no olhar. Isso seria explicado pelo fato de ela ser quente por dentro. Ela era quente e sabia disso.
Andava com tamanha segurança como se soubesse que após passar, se olhasse para traz, teriam vários homens a admirando. E teria.
Tinha uma expressão fria, por conta de seu corpo frio por fora, e tinha personalidade, meio frustrada mas tinha. 
Essa Sophia era linda, não bonita, linda mesmo. Daquelas garotas que a gente sente vontade de levar embora e fazer besteira. 
Daquelas gostosas que você tem vontade de apresentar pra todos os seus amigos, só pra se gabar. 
Meu deus como era gostosa! 
Essa Sophia sem dúvida alguma se bastava e não andava procurando ninguém por ai. 
Não tinha necessidade nenhuma de outra pessoa ao seu lado. 
Não leh faltava quase nada, muot menos homens. O que lhe faltava era amor.
Para a minha infeliz sorte, conheci Sophia em um de seus dias bons e após 10 min de conversa eu a queria pra mim. Eu queria segura-la em meus braços e aquecê-la do frio que ela sentia exageradamente. 
Eu queria que ela fosse a minha menina Sophia, de tranças. E ela foi, enquanto era apenas essa Sophia.
Mas logo depois que conheci a outra não foi preciso muito pra que eu soubesse que eu iria me machucar. Eu tentei ser pra ela uma salvação sabe? 
Eu realmente pensei que ela só precisava de compreensão.  
Bem, eu estava errado, e assim que botei os olhos naquela Sophia eu soube que ela não era mais a  minha menina. Assim que botei os olhos nela eu soube que eu não tinha mais nada pra fazer ao lado dela.
Depois que fui embora a vi poucas vezes. Em uma delas eu não consegui decifrar em qual dos dias ela estava. Ela tinha a expressão fria, os olhos de fogo, a bochecha exageradamente rosada pela maquiagem mas ela estava acompanhada e posso afirmar que aquele era o alguém que a minha menina Sophia procurava. 
Digo isso pois vi a maneira como ela segurava a mão dele e ouvi a doçura inconfundivel em sua voz ao falar o nome dele. E por traz de todo aquele fogo, eu vi dentro dos seus olhos um brilho incomun, pupilas dilatadas e um olhar de veneração assim que pousava seus olhos na figura ao seu lado. 
Sim ela o amava. 
Era fácil de ver. 
E ele sabia que tinha todo o seu amor.
Mas sabia também que era uma questão de tempo até esse amor se esvaecer. Tinha tanta certeza disso que segurava a mão de Sophia como se ela fosse sair correndo a qualquer momento e acompanhava cada movimento dela como se ela estivesse tramando uma fuga desesperada, e talvez ela realmente estivesse.
E se eu fosse pra Sophia o que esse cara é agora eu teria ficado ao seu lado. Eu a teria obrigado a ser a minha Sophia, eu teria segurado a sua mão e iria acompanhar cada movimento dela. A teria trancado em cativeiro nos dias ruins se preciso fosse. 
Se iria adiantar eu não sei, mas eu teria tentado mais. 
Mas a Sophia nunca havia me olhado daquela maneira.
Sophia nunca havia falado meu nome com tal tom de devoção e amor.
Hoje, pensando melhor, percebo que Sophia sequer foi minha. 
Não, não minha. Foi de todos,menos minha.
Quando a vi acompanhada eu realmente pensei que talvez haveria agora uma salvação para aquela Sophia doce. Adivinhem ? Errado outra vez. 
Depois disso, da última vez que a vi, ela estava com certeza num dia ruim. 
Com uma garrafa de conhaque na mão e rodeada de homens.
Sophia botou fogo em mim quando me olhou. Senti meu corpo estremecer inteiro e tive vontade de fazer besteira com aquela Sophia.
E eu já tinha até me esquecido, mas meu deus, como pode se tão gostosa ?
- Ana




quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

além do ponto.

Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso. Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhada da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos. Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d'água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbada, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava,todo dia um bom pretexto...

E fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome ...
E eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras ..

Teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava ...
E tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era.
Caio F. de Abreu

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

meus sete pecados.

Minha avareza de sentimentos, não compartilho minhas lágrimas, meus sorrisos, minhas verdades, minhas mentiras, minha gratidão posso me arrepender mas guardo todos pra mim, afinal o arrependimento é meu e de mais ninguém. As flores, os sonhos, os medos, os desejos, o amor são meus, sei que não há no mundo que possa me dizer que não são meus.Minha superioridade, meu orgulho desmedido, sou soberana nos meus atos, nas minhas palavras, insisto no que considero correto e desejável, minha soberba grita quando falo de amor próprio. Abraços para os subalternos. Minha ira inevitável que embaça a minha visão, transtorna o meu raciocínio e envenena a minha alma ao ver pessoas tão fúteis e ignorantes, desejando que elas fossem esmagadas, estraçalhadas ou até mesmo extintas eliminado toda a minha energia negativa que estava contida a tempos. Minha gula que preenche meus buracos interiores causados pelas frustrações do dia a dia, pela falsidade, pela arrogância que me ferem com seus dolorosos hematomas que para sempre me deixarão cicatrizes.A preguiça meu bem necessário, a mãe da tecnologia, só tenho a lhe agradecer pelo controle remoto, serviços de entregas, camas enoooormes, lençóis macios, o que me faz ganhar só mais cinco minutinhos, aaaah preguiça você é o pecado necessário. Desejo tudo o que há de melhor, ainda mais se não for preciso nenhum esforço, sim aquela flecha envenenada me atingiu e consome o meu corpo cada dia mais, que me faz querer vingança, me faz querer o que é meu, desejar o que é meu, o meu merecimento queima e arde na inveja. Sou dominada pelo desejo de experimentar, gosto do exagero, do desejo, do estímulo, da sensualidade, da abundância, da orgia dos sentidos, pois se um homem precisa de várias mulheres para se satisfazer, por que uma mulher tem que se contentar com um único homem ? Não existe um só espírito que não deseja a mais egoísta paixão, a luxúria.




texto de Giordana
fontehttp://annabelyy.blogspot.com/2010/12/meus-sete-pecados.html

domingo, 19 de dezembro de 2010

23:23

Ana olhou no celular outra vez, 18:18


- Mas que inferno - Começou a reclamar sozinha; anos vivendo numa casa enorme com os pais constantemente fora a deram o hábito de conversar – e muito – sozinha:
- Toda vez que eu olho essa maldita hora ela ta igual. Ta assim desde as 15:15... - As pessoas na rua já estavam olhando-a engraçado, imaginando que tipo de tecnologia surreal ela estava usando para se comunicar com alguém sem aparentemente estar com alguma espécie de fio na cabeça.
- Só porque ele falava essa coisa idiota eu não paro de olhar... – ela fechou os olhos e fez o pedido, o mesmo que fazia há cerca de um mês.

* Flashback
- São 23:23 – ana. falou olhando pela janela de vidro de sua casa, observando o céu.. ele do outro lado da linha apenas sorriu. – Sabe o que significa? - Que tem alguém pensando em você – Ele falou simplesmente. - Não... Significa que a pessoa que viu pode fazer um pedido. - Não, não... Pra mim, é que alguém ta pensando em você. - Não; Pensando em você é aquela da correntinha, quando o fecho aparece na frente... - Essa também ana, a hora igual é alguém que gosta de você pensando em você... - E o pedido? Faz quando? - Estrela cadente! 

- Ahhhh, mas é muito difícil ver uma – ela falava mole e bocejando. Mas mesmo assim, mais feliz do que nunca por ouvir aquela voz do outro lado da linha. 
- Ana

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

É isso.


.... e abro mão do meu coração, de novo.
Infelizmente não pelos mesmos motivos de sempre.
Eu abrirá mão do meu coração a um tempo atrás porque não o queria mais. Ja tinha provado a mim mesma que o coração era o inimigo mortal da razão e que eles nunca andariam juntos. Então havia escolhido a razão e convivia bem só com ela, até que... - passei o braço sobre meu peito pra suportar a dor.- eu aqui sentada no piso frio e branco do meu banheiro tinha absoluta certeza que aquele coração que eu larguei a uns mêses atrás estava mais presente em mim do que qualquer outra razão e agora eu abriria mão do meu coração de novo.
Mas desta vez era diferente. Esse abandono não era uma escolha, eu estava sendo obrigada a isso. Estava sendo obrigada por pessoas que nem sequer sabiam o que eu sentia. Apontam o dedo e dizem '' VOCÊ NÃO GOSTA DELE'' ... quem será que pensam que são pra me dizer o que eu sinto ? ninguém... Não são ninguém. Pelo menos não mais. 
E agora aqui tendo que imaginar a minha vida sem ele,eu sinto uma dor que não me é estranha. É como se houvesse um buraco onde meu coração costumava ficar. É uma dor inconfundível, a dor de um amor perdido misturada com a revolta e a ânsia de vômito que sinto só de pensar nessa gente, misturada com a necessidade que tenho de ser fria pra enfrentar tudo que virá. 
-"Sou fraca", digo a mim mesma encostando a cabeça sob os joelhos. Então aquela voizinha irritante grita - ''Levante e lute Ana Laura''. Meus joelhos fraquejam, -"Sou fraca, repito."Talvez as pessoas que estão realmente do meu lado tenham razão e seja só questão de tempo até que tudo se resolva ou talvez não.
Talvez abrir mão do meu coração de uma vez por todas seja mesmo o meu destino.
Seja voluntariamente ou por mera obrigação. - talvez, talvez.. sessurrei. - Então abri meus olhos, me levantei do chão do banheiro e la fui eu pro adeus mais dolorido de toda minha vida.

- Ana

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

a arte de fingir.

E eu não conseguia sequer falar, o único som que emitia era o de minha respiração.. Conseguir olhar naqueles olhos sem que os meus transbordassem em lágrimas já era um esforço demasiado.

- "Diz alguma coisa pelo amor de Deus!"- Disse ele, mostrando estar desesperado.
Continuava de cabeça baixa, com o cabelo cobrindo o rosto.
- "Por favor, não me ignora, olha nos meus olhos! Diz pra mim que vai ficar bem.". - E levantava meu rosto.
... O que quer que eu diga? Tá doendo muito, e vai doer mais quando eu acordar e pensar em nós, quando o efeito do remédio passar e eu tiver que viver, meu coração vai transbordar de sangue, não poder te tocar todos os dias vai ser a pior coisa que já me aconteceu, tá tudo sem cor e eu não tenho mais forças pra segurar estas lágrimas, prometi pra mim mesma que não choraria na sua frente, mas não tá dando, é impossível. Eu queria agora ser ela e ter o seu amor, queria ter sido capaz de te fazer me amar, mas eu não fui! E nesse momento te deixar partir está me matando, te dizer que seja feliz sem mim foram minhas palavras mais altruístas, pode ter certeza. Eu amo muito você, grande, bem grande.. Tão grande que não coube em mim, e nem que quisesse caberia em você.
- "Eu ficarei bem.Ótima aliás !"
- Ana

terça-feira, 16 de novembro de 2010

ela e ele

Ele era um menino bonito sabe, lindo por sinal e mais encantador ainda com a leveza de suas mãos e a delicadeza junto a face dela. Aqueles poucos segundos em que ocorreram aquela cena, jamais sairam da minha mente.
Ela não o conhecia, ele não a conhecia, porém os dois juntos tinham uma sintonia incrivel. O corpo dele seguindo o ritmo dela, na batida da musica não muito agitada. Ela  acabará de discutir com suas amigas e ele fez ela voltar atrás em suas palavras.. ele conteve as lagrimas dela sem dizer uma palavra. Sim! Sem dizer nada! 
Ela nunca ouviu a voz dele, ele nunca ouviu a voz dela, mas era como se eles se conhecessem a anos. Com um toque, um simples toque aquele momento ficou selado para sempre, na vida e no corpo dos dois. Um beijo. Eles eram um casal bonito, dentre outros, se destacavam, não sei porque... talvez pelas vozes nunca ouvidas.
O beijo mais simples, mais encantador, para nunca mais.
Ela... sonha em voltar para aquele momento!
Ele... não sei, talvez nem esteja vivo agora!   
Ela e ele,não da nem pra imaginar o que aconteceu a seguir,ela sem ele,e ele sem ela,individualmente não tinham nada de mais,mais os dois juntos tinham uma sintonia incrível.


- Ana


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sem Ana Blues.


De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca - de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrara de uma briga. O gosto de lágrimas chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedra sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo da boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu.

O que começou a acontecer, no meio daquele ciclo do gosto de vodca, lágrima e café, foi mesmo o gosto de vômito na minha boca. Porque no meio daquele momento entre a vodca e a lágrima, em que me arrastava da sala para o quarto, acontecia às vezes de o pequeno corredor do apartamento parecer enorme como o de um transatlântico em plena tempestade. Entre a sala e o quarto, em plena tempestade, oscilando no interior do transatlântico, eu não conseguia evitar de parar à porta do banheiro, no pequeno corredor que parecia enorme. Eu me ajoelhava com cuidado no chão, me abraçava na privada de louça amarela com muito cuidado, com tanto cuidado como se abraçasse o corpo ainda presente de Ana, guardava prudente no bolso os óculos redondos de armação vermelhinha, enfiava devagar a ponta do dedo indicador cada vez mais fundo na garganta, até que quase toda a vodca, junto com uns restos de sanduíches que comera durante o dia, porque não conseguia engolir quase mais nada, naqueles dias, e o gosto dos muitos cigarros se derramassem misturados pela boca dentro do vaso de louça amarela que não era o corpo de Ana. Vomitava e vomitava de madrugada, abandonado no meio do deserto como um santo que Deus largou em plena penitência - e só sabia perguntar por que, por que, por que, meu Deus, me abandonaste? Nunca ouvi a resposta.
Um pouco depois desses dias que não consigo recordar direito - nem como foram, nem quantos foram, porque deles só ficou aquele gosto de vômito, misturados, no final daquela fase, ao gosto das pizzas, que costumava perdir por telefone, principalmente nos fins-de-semana, e que amanheciam abandonadas na mesa da sala aos sábados, domingos e segundas, entre cinzeiros cheios e guardanapos onde eu não conseguia decifrar as frases que escrevera na noite anterior, e provavelmente diziam banalidades, como volta-para-mim-Ana ou eu-não-consigo-viver-sem-você, palavras meio derretidas pelas manchas do vinho, pela gordura das pizzas -, depois daqueles dias começou o tempo em que eu queria matar Ana dentro de tudo aquilo que era eu, e que incluía aquela cama, aquele quarto, aquela sala, aquela mesa, aquele apartamento, aquela vida que tinha se tornado a minha depois que Ana me deixou.





Caio F. Abreu 

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

mais uma de amor pra quem não ama.

Ele me espera no restaurante das árvores. Diz que até o garçom já sabe que eu sou como sou, de tanto que ele não tem outro assunto. Ele me espera, pede mais pãezinhos, ensaia um bom vinho para mim, limpa o suor da cara no guardanapo. E vai esperar por toda a noite.
Mal sabe ele que acabo de responder a uma mensagem de texto dizendo que vou chegar em minutos. Ele me espera com a porta do banheiro aberta, enquanto esfrega seu centro num ato de pureza. Ele quer sacanagem comigo, mas daquele tipo de sacanagem pura com direito a perguntar baixinho "tá doendo"?
Não muito longe dali ele se prepara para sair com os amigos, seus amigos tão deliciosos quanto ele. Passa o mesmo perfume que eu, mas na versão masculina. Seu charme está em ter transformado a sua dor em ironia. Adoro pessoas sofridas. Adoro o ódio medroso e óbvio das pessoas sofridas. Talvez amanhã a gente possa se odiar juntos, num ato de sinceridade livre e animal perante tantos amores pálidos pela cidade corretinha. A cidade corretinha que faz bodas disso e bodas daquilo, mas se entope da porra do Prozac, mas se entope da porra do canal de sexo com aquelas mulheres de sobrancelha desenhada. Mas se entope da porra da opinião dos outros sobre o que é ter chegado lá. Ninguém chega a porra de lugar nenhum.
Mas eu chego, e estaciono meu carro lá dentro, como se fosse dona do pedaço. Ao menos por algumas horas eu serei dona de um pedaço que agora é esfregado no banho em mais um ato de pureza. A sacanagem óbvia é muito mais pura que o ódio envergonhado das bodas disso e das bodas daquilo.
Ele pede a conta e vai embora. Jantou sozinho, o coitado. Se tenho pena? Nenhuma. Nenhuma. Cavoco meu ser até quase me virar do avesso para resgatar um pouco de bonitinho em minha alma, mas descubro que não tenho nenhuma pena dele. Não gosto de quem não amo e ponto final.
Ele encontra os amigos deliciosos e vai ganhar a noite. Se perde muito para tal. Mas ganha alguma coisa sim, sempre se ganha alguma coisa. Talvez uma rinite alérgica ou um buraco no peito. Mas sempre se ganha alguma coisa na noite.
Eu espero comportada do lado de fora enquanto ele termina de se esfregar. Sei da bucha porque sua pele chega quente e vermelha. Tenho vontade de colar minhas veias na dele para que meu sangue ganhe aquele mesmo movimento. Desde que ele me contou numa noite besta que queria salvar o mundo e isso não me soou mais um papinho furado sobre salvar o mundo, fiquei assim. Tenho vontade que meu sangue e o dele passeiem juntos.
Nós vamos mais uma vez nos olhar querendo transar até amanhã, mas vamos apenas assistir à novela e tentar adivinhar as falas. Nós vamos mais uma vez querer atravessar as ruas de mãos dadas, mas vamos brincar de dar ombradas um no outro. Eu prefiro morrer sua amiga do que quebrar algum elo misterioso e te perder para sempre. Te perder como sempre.



Ele escuta uma dessas músicas da modinha ao estilo Madeleine Peyroux antes de dormir e tenta entender qual é o meu problema. Será que eu não fui porque ainda sofro por aquele amor mal resolvido? Será que eu não fui porque tenho medo do amor? Será que eu não fui porque tenho medo de sofrer? Ahhh, os homens apaixonados. Ainda mais burros que as mulheres que acreditam na dor irônica. Eu não fui apenas por uma razão: eu não gosto de quem eu não amo e fim de papo.

Tiro o carro da garagem dele e corro para encontrar o outro e seus amigos deliciosos. Ele tem braço de estivador e tem um buraco entre o começo da perna e o fim do tronco. Coisa de homem sarado. Só não digo que ele parece o Bob da Barbie porque esse era eunuco e vivia rindo. Se bem que ele vive rindo e ri tanto que não parece ter centro. Parece eunuco.
Adoro sua virilha, sou obcecada por ela. Adoro seus amigos fortes. Adoro tudo o que dói nele, como diria aquela fala do filme "Closer" que eu adoro. Adoro que posso encontrá-lo sempre depois das três da manhã, sempre depois dos jantares que eu não vou e das transas que eu não faço. Adoro que posso morrer por ele ou nem lembrar que ele existe. Amor de pica é assim mesmo: o maior e o mais leviano de todos.
Ele acabou de me descobrir pela Internet e dorme tentando me encontrar, tentando me encaixar. Sente uma pontada no peito e uma pontada lá embaixo. Deve ser engraçado ser homem e amar assim de maneiras tão opostas e complementares. Ele não sabe que tudo o que eu mais quero é casar e ser mãe de um casalzinho que dança pelado antes do banho. Mas esse meu querer está esquecido em algum canto de mim, está esquecido depois de tanto eu querer isso e a vida me dizer que eu ainda não podia.
Ganhei a porra da dor irônica. Ainda que seja estupidez acreditar nela. Agora o que eu quero é saber que o outro se esfrega no banho, que o outro se fode no restaurante, que o outro me espera sempre depois das três e tem amigos deliciosos. Que o outro é especial demais, mas talvez ainda não seja o personagem principal daquela festa de final de novela, com todos os personagens de bem. Está acabando a história, mas ainda dá tempo de não amar mais um pouquinho. Mando uma mensagem para ele, que a essa altura dorme abraçado a uma menina que já encheu o saco, achando que encontrou a mulher da vida. Mando uma mensagem para ele, que a essa altura dorme demais como sempre e já deve ter me esquecido, mesmo lembrando de mim em todos os intervalos de coisa melhor pra pensar. Mando uma mensagem para ele, ainda que ele já tenha desistido do amor e prefira o cheiro de chiclete com chulé da nuca da sua filha.
Durmo com mais de trinta homens, e mais uma vez sozinha. Mas esse texto, juro, é uma comemoração a isso. No fundo, no fundo, eu gosto. Ainda que eu me sacaneie com pureza e me pergunte baixinho: tá doendo?


domingo, 24 de outubro de 2010

segue seu caminho.



“Deixa essa dor passar e eu juro que vou logo atrás de você.” 
Mentira, não te segui, pra falar a verdade nem pensei em olhar pra você para ver em que direção você estava indo. Naquele momento em que você me deixou para trás, só pelo fato de estar sentindo dor, você me provou que não me amava tanto quanto eu te amava, pois se amasse não me deixaria para trás. 
Senti ódio de você naquela hora, tanto ódio que não quiz mais saber teu caminho.
Depois de um tempo, senti que a dor foi aumentando, me levantei, mas cai novamente, pois ouvi sua risada e ouvi a risada de outra menina te acompanhando. Não levantei mais. 
Você não teve noção do quanto te amei? 
Você não sabia mesmo que doia em mim cada vez que você ria com ela?
Você nunca se lembrava dos momentos que passamos juntos?
Você nunca sentiu falta dos nossos beijos?
Você nunca me quis de volta?
Não precisa responder. Eu já sei que não. Ela é muito diferente de mim, quer dizer… ela não tem nada haver comigo, então isso significa que você nunca me amou. pois você diz que ela é perfeita, e eu fui oque? Imperfeita para você? mas então foi tudo mentira. cada dia, cada beijo, cada abraço, eu me entreguei para você! Eu fui tola. 
E continuo sendo, fico na cama o dia inteiro jogada, retorcida de dor, pois sempre imagino vocês dois juntos, e isso me mata. 
Vou morrer um dia, sei que vou morrer. E vou morrer sem você. 


desconheço.

domingo, 17 de outubro de 2010

Enquanto todos me dizem que preciso ser forte,que o silêncio é arma,a indiferença é o que mata,e viver é preciso,fugir de toda essa loucura que acomete as pessoas,o medo nojento que os outros têm de dar amor,e receber também em troca.O amor é essa ciranda onde todos rodeiam,e cantam,exibem sorrisos e feições de satisfação,em que eu me encontro excluída,sentada num canto,de braços cruzados e cara amarrada.Ninguém me convida,e fico apenas atenta,observando os casais que se completam,a vida que se move,e os beijos que não dou,as juras eternas que não escuto.Fujo algumas vezes, tapo os olhos em outras,mas a roda incessante e desgovernada apenas brinca de bobinho comigo e minha esperança em ser chamada;garotinha tola que quer se divertir um pouco,e não sabe entrar - apenas pedir, pedir e pedir,nunca penetrando de vez.Se deixando iludir por cartas,e signos,mensagens inoportunas,sinais divinos,que na verdade dizem nada e fantasiam qualquer dúvida posta em questão.
Fica difícil assim me focar em mim de imediato,em tudo que sinto,em curar a cada dia toda essa peste que me tomou o alma,e embeveceu a vivacidade que eu carreguei,até aqui:só se vê os defeitos,aquilo que precisa ser melhorado,e expectativas tão longínquas,que não satisfazem,e sim,enlouquecem.Só quando sozinha é que me deixo ficar meio down,e coloco o dedo na ferida.Escuto músicas sofríveis,e leio melancolias.Dói, mas passa.E esse desespero de me verem assim na fossa, mal à beça?Calma,que preciso escancarar essa dor até o final,que ela é só minha,e libertar o peito,a alma.Tirar talvez um ódio de onde não consigo,e de quem não tenho,mesmo que passageiro,para que eu sobreponha no local onde ainda há quase tudo o que sinto,e que precisa ser esvaziado,pouco a pouco.Sair desse poço,largar de vez o osso,desses restos que não alimentam, e sim,atrofiam o que de belo existia,e se queria profundamente.Porque ainda é setembro,e toda uma primavera virá,até que se torne verão novamente.Terá passado tanto tempo,que as respostas chegarão sem medo e nem culpa,e voltarei a ser inteira como fui até certo tempo.Sem voltas comemoradas,e inexplicáveis.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

deveria ser eu no lugar dela.

Estão todos rindo na minha mente,há rumores sobre essa outra garota se espalhando...você faz o que fazia quando estávamos juntos ? ela a ama como eu te amava ? você se esqueceu de todos os planos que fizemos ? por que,amor,eu não esqueci... Deveria ser eu segurando a sua mão. Deveria ser eu fazendo você rir. Deveria ser eu,isso é tão injusto. Deveria ser eu,deveria ser eu. Deveria ser eu sentindo o seu beijo. Deveria ser eu comprando presentes. Isso é tão errado,como posso continuar sem você ver que essa,deveria ser eu.
Você disse que precisava dar um tempo dos meus erros,engraçado como você usou esse tempo pra me substituir.Você achou que eu não ia te ver saindo com ela ? O que você está fazendo comigo ? você está a levando pra onde agente ia.Agora se você estiver tentando me magoar,acredite...está funcionando.
Eu já deveria saber.Luto por amor ou desisto ? 
está ficando cada vez mais difícil me livrar dessas dor.
deveria ser eu,e mais ninguém.


J.B

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

recomeço.


"E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. É por isso que me esquivo e deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam - e queimar também destrói."

ninguém mais,só ele !


Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparada atravessando madrugadas em tua cama vazia, não consegurás sorrir nem caminhar pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele(...)


Caio F. Abreu

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Não é por que eu sujei a roupa bem agora que eu já estava saindo...
nem mesmo por que eu peguei o maior trânsito e acabei perdendo o cinema...
não é por que não acho o papel onde anotei o telefone que eu tô precisando...
nem mesmo o dedo que eu cortei abrindo a lata e ainda continua sangrando...
não é por que fui mal na prova de geometria e periga d'eu repetir de ano...
nem mesmo o meu carro que parou de madrugada só por falta de gasolina...
não é por que ta muito frio...não é por que ta muito calor...
O problema é que eu te amo,não tenho dúvidas que com você daria certo.
Juntos faríamos tantos planos,com você o meu mundo ficaria completo.
Eu vejo nossos filhos brincando,e depois cresceriam e nos dariam netos !
...Não é por que eu sei que ele não virá que eu não veja a porta já se abrindo...
e que eu não queria te-lo,mesmo que não tenha a mínima lógica nesse raciocínio...
não é que eu esteja procurando no infinito a sorte pra andar comigo...
se a fé remove até montanhas,o desejo é o que torna o irreal possível...
não é por isso que eu não possa estar feliz e cantando...
não é por isso que ele não possa estar feliz e cantando...

sábado, 25 de setembro de 2010

os opostos se atraem.


Ela estava odiando o amor por muito tempo. Ele estava querendo o amor por muito tempo. Ela sempre viveu brincando e por isso se arrependeu. Ele sempre levou tudo a sério e nunca pôde se arrepender por ter se divertido demais com as coisas que acontecem. Ela precisava de alguém que a prendesse no chão, já que vivia nas nuvens. Ele precisava de alguém que o levasse ao céu, mas não tão alto. Em meio a suas diferenças, eles começaram a se conhecer. Eo começo, ela era uma chata e ele um sem graça. Depois de um tempo, ele era seu motivo e ela sua conseqüência. Agora ele podia reclamar de se divertir demais e esquecer dos problemas com ela, e ela podia se queixar de se preocupar com as coisas, pois se preocupava com ele. Sem querer ela se apaixonou, estava amando de novo. Sem querer ele encontrou o que tanto procurava, apenas sabia o quanto a amava. A verdade é que nunca vão ser iguais e é por isso que nunca vai dar errado. Como dizem por aí: os opostos se atraem.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Para não sofrer...

Eu vou me drogar de outros, eu vou me entupir de elogios, eu vou cheirar outras intenções. Vou encher minha cara de máscaras para não ser meu lado romântico que tanto precisa de um espaço para existir ridiculamente. Não vou permitir ser ridícula, nem uma lágrima sequer, nem um segundo de olhar perdido no horizonte, nem uma nota triste no meu ouvido. Eu sei o quanto vai ser cansativo correr da dor, o quanto vai ser falso ignorar ela sentada no meu peito. Mas vou correr até minha última esquina. Vou burlar cada desesperada súplica do meu coração para que eu pare e sofra um pouquinho, um pouquinho que seja para passar. Suor frio da corrida, sempre com sorriso duro no rosto e o medo de não ser nada daquilo que você me fez sentir que eu era. Muita maquiagem para esconder os buracos de solidão. Muita roupa bonita para esconder a falta de leveza e de certeza do meu caminho.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

sobre chuva e espera...


Sabe o que é mais engraçado ?
eu amar você...  Amar você independente da minha falta de paciência,da sala de decepção, dos rios de cores cinza, do confundir das gotas de chuvas com as lágrimas nos meus olhos... O mais engraçado, senão incrível, é que mesmo com tudo me dizendo que não vale a pena, eu te amo ainda mais. Não por falta de amor próprio, ou por achar que eu sou a culpada de alguma coisa, até porque pra mim quem é culpado nem importa tanto assim... Quando agente decide, e isso é mesmo uma questão de decidir, o que importa é encontrar as soluções. E a solução não é procurar quem fez o que, mas o que precisa ser feito... Mas talvez sentar e esperar a saída cair como chuva na sua cabeça seja, pra você, a solução ideal. Pois esperar chover. Eu vou continuar te amando, Só não sei se vou continuar aqui... esperando!
D.