quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

não senti nada.


Senti aquele  líquido gelado descendo na minha garganta.
Minha cabeça estava doendo, ou pelo menos deveria estar, mas eu não estava sentindo nada.
Aquele clarão no céu escuro estava começando a  incomodar, e o barulho daquelas coisas coloridas deveria estar incomodando também. Mas eu não estava sentindo nadinha.
Todos ao meu redor com um brilho nos olhos, sorrindo, felizes. O clima era de uma felicidade quase palpável. 
E eu ? eu não estava sentindo nada. Sou capaz de dizer que eu não estava nem ali. Meu corpo podia estar,mas eu não estava la.
“Então é ano novo?” - Pensei comigo. – “Vida nova né? Hábitos novos, tudo novo? Então porque cargas d’água eu não me sinto nem um pouco nova ? Não me sinto diferente ?”
Talvez, só talvez, o álcool e todo o resto estivessem mesmo massacrando minha capacidade de sentir alguma coisa, por isso não havia um sentimento de renovação dentro de mim. 
Não havia ar de esperança pro próximo ano, não havia sentimento de amor, muito menos de prosperidade. Das poucas coisas que eu estava sentindo naquele momento, nenhuma delas era compatível com esses sentimentos de Ano Novo e eu não tinha razão pra sentir isso.
E em contrapartida, as coisas que eu deveria estar sentindo como culpa ou remorso, estavam também bem longes de mim. 
Eu tinha uma garrafa de uísque nas mãos e cada vez que olhava pra ela eu era tomada pelo sentimento não bom, esse sentimento me enchia de pensamentos ruins e me fazia desejar muito mal as pessoas.
Eu tinha um baseado na outra mão e cada vez que eu olhava pra ele me enchia do mesmo sentimento, dos mesmos pensamentos ruins, das mesmas coisas não boas. Mas eu gostava disso, e por gostar disso, passei a me sentir a pior pessoa do mundo. 
Alguém que gostava do que fazia mal. Alguém que não merecia o amor de ninguém. Não, eu não merecia.
Eu merecia mesmo era passar os domingos de chuva sozinha, sem ninguém pra assistir filme e dividir meu café.
Eu merecia ver todos a minha volta felizes e não conseguir chegar a essa felicidade nunca. 
E todas as coisas que me machucou um dia, e todos os amores não correspondidos, e todas noites não dormidas com os olhos inchados de chorar, e toda aquela dor que eu já sofri, tudo isso e muito mais...era merecido.
A vida ja havia me dado varios socos,mais eu ainda acho que foi pouco por tudo que eu fiz e por tudo que estava prestes a fazer.
E o meu lema de ''tudo que vai um dia volta'' fazia muito mais sentido quando eu levava o que me era de merecimento.
Dessas voltas que a vida da a única coisa que tirei de aprendizado foi mesmo isso, que tudo que vai volta, agora mais que comprovado. 
E vai, e volta... volta em dobro ainda. 
Mas acho que no fundo eu até gosto - "Deixa que a vida me devolva em dobro." eu dizia, "que quando chegar aqui em dobro, eu faço retornar pra ela em triplo."
Então eu, teimosa,  finco meus pés no chão e espero tudo que eu fiz voltar pra mim. E volta...
Mas quando volta sempre me encontra com um sorriso fútil, com meu uísque e meu baseado na mão, não sentindo nada. 
- Ana

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