quarta-feira, 16 de março de 2011

é ela,outra vez.

O olhar dilacerante era uma afronta. 
Os cabelos soltos, daqueles que vagam e acompanham a direção do vento, eram quase um xingamento. 
As unhas vermelhas ofendiam, ofuscavam, sugavam o brilho de meio mundo, seduziam, agitavam, acalmavam, faziam dormir. 
Era de um sabor extremo doce picante. Do tipo que ardia e acalentava.
As sobrancelhas levemente levantadas realçavam em Sophia a mulher que jamais conseguira ser. Apesar de possuir uma beleza que insultava, era dotada de um caráter avesso, uma espécie de anti-caráter. Era ilegal, ilegítima, imoral, envolvente, convidativa, repulsiva. Era o contrário do oposto, o oposto do inverso, era o término do fim e o início do começo.
Desfilava inocente pelas ruas e escondia a fixa posição de ré, de quem comete o pior dos crimes, é julgada, é bandida, é fugitiva, e já não é mais nada.
Vivia atormentada, e confesso ter sentido dó da Sophia – mas uma pena leve, uma preocupação ligeira, um daqueles pensamentos rápidos sobre corações alheios.
A incredulidade de uma bela mulher originava-se de um passado que só fazia remoer, afligir, ocupar, preocupar, doer, doer mais uma vez.
Não teria problemas em não correspondência de amores bobos caso não conhecesse um simples Bruno, um daqueles que se encontra por aí, cheio de chapéus e sapatos fechados, blusas disfarçadamente abertas, dos que sorriem sem mostrar os dentes e que guardam uma vida e uma história tão simples que viram canções de ninar em papos terríveis desprovidos de grandes ou fortes acontecimentos.
O cara comum apaixonara-se pela mulher teatralizada, dramática, lotada e cercada de falsos amores, enganados sentimentos, fajutos corações. Sentira amor uma única vez e isso bastara para que não mais se atrevesse a senti-lo.
Mas era cruel, atormentava com a excessividade de seu charme, a extravagância na escolha de palavras, a deselegância na apresentação de um amor longe de existir. Iludia, era iludida, fazia sofrer, dizia amar e pisava quase sem querer. Retorcia, quebrava, arruinava.
Recebia flores, abraços, amores, ouros, pratas, bronzes, carros, casas, vidas, homens, homens apaixonados, sempre homens, iludidos e desiludidos.
Intrigava, causava, mentia. Possuía uma, duas, três caras. As máscaras caíam pouco a pouco e a vontade incessante de doar-se confrontava-se com a culpa de ter recebido amor sem retribuir. Merecia ser feliz? Responda-me sem hesitar, merecia? Era uma bruxa bem vestida ou uma fada mal amada? Era um inseto irritante, minúsculo, incômodo. Falsa, não era amante, era a assassina e a vítima.
Abrigava um inimigo em seu próprio peito. Um coração sem pilhas, baterias, desligado de tomadas, defeituoso, frágil, antes escoltado, depois violado, carregado de um vazio que pesava sem pesar apesar de tanto sofrer.
Oferecia sem ter o quê oferecer e quando recebia não sabia a maneira de aceitar. Fugia com uma ou duas palavras ditas ou fugia muda. Era confete, serpentina, cerimônia fúnebre, chuva torrencial. Era vontade de viver, tristeza, disfarce de alegria, falsidade, mentira, era inocente, era culpada. Irreal, uma contradição. Não era uma mulher, era um paradoxo. Não era apenas um paradoxo, era quase uma mulher. Inconciliável, poderia ser uma autora de textos. Conflitante, vendia imagens de amores que nunca viveu. Era sem escrúpulos, sem medo de ser descoberta, não aprendera a sentir, a lidar, a ser tocada e tocar também. Era quase eu, quase você.
- Ana

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